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Superdotado não é gênio

Jorge Bispo

 

Vinícius Feitoza, 8, desenha com desenvoltura e faz obras de arte, como um detalhadíssimo Titanic, com peças de montar

Quando alguém ouve o termo "superdotado", a primeira imagem que vem à cabeça é a do gênio, que sabe tudo sobre todas as coisas, como Albert Einstein ou Leonardo da Vinci. Mas não é bem assim. Hoje, já é consenso que o superdotado não precisa ser bom em tudo. "Ele pode ter desenvolvimento abaixo da média em determinadas disciplinas ou não se sentir estimulado com o ensino convencional", afirma Marília Gonzaga, gerente do programa de apoio à aprendizagem de superdotados da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.

É justamente o fato de ter habilidades surpreendentes em áreas específicas, mas de não ser, necessariamente, brilhante em tudo, o que diferencia o superdotado do gênio. "O gênio muda a concepção do mundo de sua época, com propostas inusitadas, antecipatórias. Já o superdotado faz propostas criativas, reformula soluções. Por isso, todo gênio é superdotado, mas nem todo superdotado é gênio", define a professora de Educação da Uerj Marsyl Mettrau, presidente da Associação Brasileira para Superdotados (ABSD).

O que o Aurélio classifica como "indivíduo dotado de inteligência invulgar", a Ciência traduz como alguém que precisa de cuidados e estímulos para canalizar todo o potencial de suas habilidades de forma positiva. Por isso, os especialistas alertam para a importância de monitorar os superdotados. "Sem acompanhamento adequado, eles podem querer se igualar à média, atrofiando-se para ficar iguais aos outros. Podem se rebelar e usar seu potencial contra si mesmos ou até se voltar contra o próprio grupo social", explica a presidente da ABSD.

Estímulos - Como os superdotados nem sempre tiram dez em todas as disciplinas, muitas vezes demoram a ser identificados por pais e professores, o que pode comprometer o desenvolvimento do potencial. Pior: sem os estímulos necessários, perdem o interesse pela escola e passam a apresentar problemas de comportamento.

A arquiteta Maria Alice Manzano André perdeu as contas de quantas vezes foi chamada à escola para as professoras reclamarem do comportamento de seu filho João, hoje com 9 anos. "Ele atrapalhava as aulas, acabava as tarefas antes dos outros e tinha muita liderança entre os colegas de turma", conta Maria Alice. Após uma batelada de testes, descobriu-se por que João se comportava daquela maneira: ele é superdotado - com desempenho surpreendente em artes plásticas e cênicas - e não estava sendo devidamente estimulado.

Depois que as habilidades de João André foram identificadas, ele passou a fazer atividades complementares e teve sensível melhora na escola. A professora foi orientada, e agora o menino tem atividades extras em sala para se manter ocupado - e calmo. Além disso, passa duas tardes por semana em oficinas do programa gratuito de apoio à aprendizagem de superdotados do governo brasiliense, criado em 1976, que oferece aulas complementares nas áreas de maior interesse do aluno. "Gosto de modelar máscaras, desenhar. Até a professora na escola me pede para ir ao quadro quando não sabe desenhar alguma coisa", conta João André.

Quem também revelou dons artísticos cedo foi Vinícius Feitoza, 8. Ele falou as primeiras palavras aos nove meses. Hoje, desenha com desenvoltura e monta objetos complexos com as peças de Lego. "Ele já montou e desmontou um Titanic com detalhes surpreendentes. É incrível a facilidade com que faz as coisas", conta o pai, o psicólogo Márcio Amorim Feitoza. "Agradeço a Deus pelos dons que o Vinícius tem, mas fico de olho para que ele não exagere na dedicação às coisas que gosta", afirma.

Sem segregação - Superdotados precisam de estímulos e atenção extras, mas não devem ser segregados em colégio especiais, muito difundidos na década de 80. "As escolas especiais nunca funcionaram. Salvo pouquíssimas exceções nos Estados Unidos, não existem mais em nenhum lugar do mundo", afirma a professora Marsyl Mettrau.

O neurocirurgião Joel Teixeira, superdotado e presidente brasileiro da Mensa - organização mundial para superdotados, criada na Inglaterra em 1946, que tem hoje mais de cem mil membros - pensa diferente e vê o lado positivo das escolas especiais. "A escola é mais completa e é interessante o superdotado conviver com pessoas mais parecidas com ele. Por outro lado, fica privado do convívio com o mundo normal, que irá encontrar depois", analisa Teixeira.

Se a escolha da escola é complicada, a tarefa dos pais é igualmente complexa. "Ter um filho superdotado dá orgulho, mas também traz problemas. Fiz cursos para saber lidar com isso, para ajudar meu filho a se relacionar bem com os outros", conta Venceslau Vaz da Costa, pai de Caio Yuri, 10. O menino aprendeu a ler sozinho aos dois anos, tem talentos em diversas habilidades e, quando entrou na escola, aos 4, já sabia tudo o que estava sendo ensinado. Resultado: o relacionamento em sala era ruim, tanto com colegas como com os professores. Os pais tiveram de enfrentar o dilema de permitir ou não que Caio pulasse de ano, ficando um ano adiante dos colegas de sua idade. "Há pressão de vários lados, mas não quero que ele pule de série para não ficar pequeno na turma dos maiores", diz o pai.

Para Caio, ser superdotado é garantia de um futuro promissor. "É uma coisa boa. Posso fazer os deveres mais rápido. Também é um sinal de que vou ter bom emprego, bom salário e mais conhecimentos", planeja o menino, que já escreve poesias e pretende editar um livro.

Diagnóstico confuso - A precocidade, entretanto, nem sempre indica superdotação. "Andar e falar cedo podem ser sinais de picos de desenvolvimento, não de de superdotação", explica Mettrau. Outra confusão muito comum é pensar que o filho é superdotado, quando o que tem de verdade é transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Crianças com esse problema somam de 5% a 9% da população escolar no Brasil e têm sua inteligência bloqueada pela falta de concentração.

A confusão entre superdotados e hiperativos acontece porque ambos são muito agitados e terminam sendo igualmente rotulados de crianças-problema. "O João Igor nunca conseguia passar icógnito e, muito impaciente, tinha problemas de relacionamento na escola", conta a bióloga Carla Cavalheiro, mãe do garoto de 10 anos. "Ele é questionador e, muitas vezes, tem razão no que diz. Mas é preciso impor limites." Quando Carla descobriu que tinha um filho "altamente habilidoso", foi encaminhada para a ABSD. Desde então, João Igor participa de atividades complementares, e Carla é orientada sobre como lidar com as necessidades do garoto. "Gosto muito de computador, de ler e das aulas de teatro, mas no colégio há aulas que são muito monótonas", reclama João Igor, aluno da 4ª série, que também garante ser muito bom em "bafo-bafo."

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